Fonoaudiólogos e Pais Concordam: Como a Percepção das Habilidades Pragmáticas de Crianças com Autismo Pode Transformar a Terapia
A comunicação vai muito além de palavras. Para crianças com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), as habilidades pragmáticas — a capacidade de usar a linguagem de forma apropriada em contextos sociais — são fundamentais para a inclusão e o desenvolvimento pleno. Um estudo recente publicado na revista Codas em fevereiro de 2026 traz revelações importantes sobre como fonoaudiólogos e pais percebem essas habilidades, abrindo caminho para abordagens terapêuticas mais integradas.
O Que o Estudo Descobriu
Pesquisadores da Região Centro-Oeste do Brasil analisaram as percepções de nove fonoaudiólogos e 70 pais ou responsáveis de crianças com TEA, com idades entre 2 e 12 anos. Utilizando o Protocolo de Avaliação de Habilidades Pragmáticas de Crianças com Transtorno do Espectro do Autismo (PAHPEA), o estudo comparou como esses dois grupos enxergam as capacidades comunicativas das crianças.
O resultado foi surpreendentemente positivo: as percepções de fonoaudiólogos e pais se aproximaram em quase todos os fatores avaliados, com concordância superior a 75% nas respostas. Isso significa que, na maioria dos casos, profissionais e familiares estão na mesma página quando se trata de identificar as dificuldades e potencialidades das crianças.
No entanto, o estudo também identificou diferenças pontuais em três fatores específicos: responsividade, funcionalidade e inadequação. Os fonoaudiólogos tendiam a interpretar o desempenho das crianças de forma diferente dos pais nesses aspectos — sugerindo que a visão técnica, baseada em critérios clínicos, pode captar nuances que os pais, no cotidiano, podem perceber de outra forma.
Por Que Isso Importa para a Terapia
A convergência de percepções entre profissionais e familiares é um indicador valioso. Quando pais e terapeutas concordam sobre as necessidades da criança, o tratamento se torna mais coeso e efetivo. Os pais passam a reforçar, em casa, as estratégias trabalhadas na clínica, criando um ambiente de apoio contínuo.
Mas as diferenças encontradas também são um convite à reflexão. A responsividade — a capacidade de reagir adequadamente a estímulos sociais — é um pilar da comunicação pragmática. Se fonoaudiólogos e pais a percebem de maneira distinta, pode haver oportunidades de alinhar expectativas e fortalecer a parceria terapêutica.
Aplicações Práticas para Famílias
Para pais e cuidadores, este estudo traz uma mensagem reconfortante: vocês conhecem seus filhos. Sua percepção sobre as habilidades comunicativas das crianças é, na maioria dos casos, consistente com a avaliação profissional. Isso valida a importância da participação ativa dos familiares no processo terapêutico.
Ao mesmo tempo, o estudo reforça a necessidade de diálogo constante entre clínica e lar. Sessões de orientação, onde fonoaudiólogos expliquem o que observam durante as terapias, podem ajudar os pais a identificarem sinais sutis e a reforçarem habilidades pragmáticas no dia a dia.
O Futuro da Intervenção no TEA
Este estudo brasileiro contribui para uma compreensão mais integrada do TEA, evidenciando que a colaboração entre profissionais e famílias não é apenas desejável — é essencial. Protocolos como o PAHPEA oferecem uma linguagem comum para que todos os envolvidos no cuidado da criança possam se comunicar com clareza.
À medida que a ciência avança, estudos como este reforçam uma verdade fundamental: o tratamento do TEA é mais eficaz quando é colaborativo, humanizado e centrado nas necessidades reais da criança e de sua família.
Referência
Borges MH et al. Perception of pragmatic skills by speech therapists and parents of children with autism spectrum disorder. Codas. 2026;38(1):e20240354.


