Crianças com Autismo e Problemas Alimentares: Pode Ser Refluxo? O Que a Ciência Descobriu
Introdução
Quase toda família com uma criança no espectro autista já enfrentou desafios na hora das refeições. Seletividade alimentar extrema, recusa em experimentar novos alimentos e comportamentos inesperados durante as refeições são comuns. Mas e se parte desses comportamentos tiver uma causa orgânica que passa despercebida?
Um estudo recente publicado no Journal of Pediatrics (Rio de Janeiro) em janeiro de 2026 trouxe descobertas importantes que podem mudar a forma como olhamos para os problemas alimentares em crianças com TEA.
O Que o Estudo Descobriu
Pesquisadores do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP) acompanharam 115 crianças entre 3 e 12 anos diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista. O objetivo era investigar a relação entre alterações no comportamento alimentar e sinais de doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) e esofagite.
Os resultados foram surpreendentes:
- 60% das crianças apresentavam alterações no comportamento alimentar
- Dessas, 89,8% mostravam sinais de alerta para doença do refluxo gastroesofágico
- 18 crianças tiveram indicação para realizar endoscopia digestiva alta
- Entre as que fizeram o exame, foram encontrados casos de esofagite erosiva (graus A e B) e esofagite eosinofílica
Por Que Isso Importa
Muitas vezes, os problemas alimentares em crianças com autismo são atribuídos exclusivamente aos aspectos sensoriais e comportamentais do transtorno. No entanto, este estudo demonstra que problemas orgânicos como o refluxo podem estar presentes e passar despercebidos.
A conexão faz sentido clínico: uma criança que sente queimação, dor ou desconforto ao ingerir alimentos pode desenvolver:
- Recusa alimentar como mecanismo de proteção
- Seletividade extrema por alimentos que não causam desconforto
- Comportamentos de evitação durante as refeições
- Dificuldades de ganho de peso e crescimento
O mais preocupante é que, sem o diagnóstico correto, essas crianças podem ser submetidas a inúmeras intervenções comportamentais que não resolvem o problema de base.
Conclusão Prática
Para pais, cuidadores e profissionais de saúde, o estudo traz uma mensagem clara: antes de atribuir os problemas alimentares apenas ao autismo, é essencial investigar causas orgânicas.
Se você percebe em sua criança:
- Recusa persistente em alimentar-se
- Desconforto após as refeições
- Vômitos frequentes ou regurgitação
- Irritabilidade durante ou após comer
É importante buscar uma avaliação médica completa. A endoscopia digestiva com biópsias, quando indicada, pode revelar condições tratáveis como a esofagite, melhorando significativamente a qualidade de vida da criança.
Este estudo brasileiro reforça a importância de uma abordagem multidisciplinar no cuidado de crianças com TEA, onde gastroenterologistas, nutricionistas e terapeutas ocupacionais trabalham juntos para garantir o melhor resultado para cada criança.
Referência: Audet de Almeida C, et al. Children with autism spectrum disorder and alterations in eating behavior: could it be gastroesophageal reflux disease? J Pediatr (Rio J). 2026 Jan-Feb.




