Rastreamento Precoce do Autismo no SUS: 1 em Cada 4 Crianças Apresenta Sinais de Alerta
Introdução
O diagnóstico precoce do Transtorno do Espectro Autista (TEA) pode transformar vidas. Quanto mais cedo a intervenção começa, maiores são as chances de desenvolvimento de habilidades essenciais para a vida. No entanto, no Brasil, o diagnóstico médio ocorre aos 47 meses de idade — bem além dos 36 meses considerados ideais para intervenção intensiva.
Um estudo pioneiro publicado em março de 2025 na revista Nursing Reports investigou a viabilidade de implementar o rastreamento do TEA na Atenção Primária do Sistema Único de Saúde (SUS), trazendo resultados que podem mudar a realidade do autismo no Brasil.
O Que o Estudo Descobriu
Pesquisadores da Universidade Presbiteriana Mackenzie conduziram um estudo na cidade de Cotia (SP), envolvendo 97 profissionais de enfermagem de 21 unidades de saúde e 267 crianças entre 16 e 57 meses de idade.
Resultados Alarmantes:
- 25,09% das crianças (1 em cada 4) apresentaram sinais de risco para TEA no rastreamento
- Conhecimento insuficiente sobre TEA entre profissionais de enfermagem da Atenção Primária
- Apenas 26,5% dos profissionais conheciam instrumentos de rastreamento do autismo
- 91% dos profissionais relataram sobrecarga de trabalho com a implementação do rastreamento
O Instrumento M-CHAT
O estudo utilizou o Modified Checklist for Autism in Toddlers (M-CHAT), instrumento validado para a população brasileira que:
- É simples e rápido (cerca de 10 minutos para aplicar)
- Pode ser administrado por qualquer profissional de saúde treinado
- Avalia áreas como interação social, contato visual, comportamento imitativo e brincadeira de faz-de-conta
- Possui sensibilidade de 94% e especificidade de 91% na população brasileira
O Desafio da Formação Profissional
O estudo revelou lacunas significativas na formação acadêmica:
- Nenhum profissional acertou todas as questões sobre conhecimento de TEA
- Apenas 58% sabiam identificar corretamente os sinais e sintomas do autismo
- Menos de 20% conheciam comorbidades genéticas associadas ao TEA
- Apenas 10% sabiam a distribuição correta de casos por gênero
Por Que Isso Importa
A Janela de Oportunidade
O sistema nervoso apresenta máxima plasticidade nos primeiros dois anos de vida. Isso significa que:
- Intervenções precoces produzem efeitos mais pronunciados
- Crianças diagnosticadas cedo apresentam ganhos significativos em QI e desenvolvimento da linguagem
- O prognóstico de funcionamento adaptativo é consideravelmente melhor
A Realidade Brasileira
Apesar de o Ministério da Saúde recomendar o rastreamento precoce desde 2014, a implementação enfrenta barreiras:
- Sobrecarga de trabalho dos profissionais de saúde
- Falta de formação específica em neurodesenvolvimento infantil
- Infraestrutura inadequada nas unidades básicas de saúde
- Desigualdade no acesso aos serviços especializados
O Papel da Atenção Primária
O estudo destacou que encaminhamentos da Atenção Primária para Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi) estão associados a maiores taxas de diagnóstico precoce comparado à demanda espontânea. Isso reforça a importância de equipar os profissionais da Atenção Básica para identificação de sinais de alerta.
Conclusão Prática: Agindo pelo Diagnóstico Precoce
Para Pais e Cuidadores:
Fique atento aos sinais de alerta entre 12 e 24 meses:
Comunicação Social:
- Não responde ao próprio nome
- Evita contato visual
- Não aponta para objetos de interesse
- Não compartilha sorrisos ou expressões faciais
Comportamento e Brincadeira:
- Não brinca de faz-de-conta
- Movimentos repetitivos com as mãos ou objetos
- Interesse excessivo por partes de objetos
- Reação atípica a sons, texturas ou cheiros
Desenvolvimento da Linguagem:
- Atraso na fala
- Perda de palavras previamente adquiridas
- Não usa gestos como acenar ou dar tchau
- Ecolalia (repetir palavras ou frases ouvidas)
O Que Fazer Se Você Suspeita:
- Anote as observações — comportamentos específicos, frequência e contexto
- Converse com o pediatra — leve suas anotações à consulta
- Busque avaliação especializada — neurologista pediátrico, psiquiatra infantil ou equipe multidisciplinar
- Não espere ‘passar’ — intervenção precoce é crucial, mesmo antes do diagnóstico definitivo
Para Profissionais de Saúde:
O estudo recomenda:
- Integração do M-CHAT na rotina de vacinação e consultas de puericultura
- Capacitação contínua em sinais precoces de TEA
- Redução da carga administrativa para permitir mais tempo de atenção ao desenvolvimento infantil
- Estruturação de fluxos de encaminhamento para serviços especializados
Recursos Disponíveis no SUS:
- Atenção Primária: acompanhamento do desenvolvimento infantil
- CAPSi: avaliação e tratamento especializado
- Centros de Reabilitação: terapias específicas
- Linha de Cuidado para TEA: protocolos do Ministério da Saúde
O estudo conclui que, apesar dos desafios, a Atenção Primária é um local privilegiado para detecção precoce do TEA. Com investimentos em formação, infraestrutura e condições de trabalho adequadas, é possível transformar a realidade do diagnóstico de autismo no Brasil, permitindo que mais crianças recebam intervenção no momento mais crucial do desenvolvimento.
Referência: Giaretta, N.M., et al. (2025). Implementation of M-Chat for Screening of Early Signs of Autism in the Brazilian Health Care System: A Feasibility Study. Nursing Reports, 15(4), 120.
Este artigo tem caráter informativo e não substitui a consulta com profissionais de saúde qualificados. Se você tem preocupações sobre o desenvolvimento da sua criança, procure orientação médica.




