Estudo Revela: 60% das Crianças com Autismo no Brasil Têm Alterações na Alimentação — E Isso Pode Esconder Problemas de Saúde Graves
Introdução
A relação entre autismo e desafios alimentares é algo que muitos pais e cuidadores conhecem bem na pele. Seletividade extrema, recusa de alimentos e comportamentos repetitivos durante as refeições são frequentemente atribuídos apenas às características do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Mas e se houvesse algo mais por trás desses comportamentos? Uma pesquisa inédita realizada no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) traz revelações importantes que podem mudar a forma como compreendemos — e tratamos — as alterações alimentares em crianças com autismo.
O Que o Estudo Descobriu
O estudo, publicado em 2025 e corrigido em fevereiro de 2026 no Journal of Autism and Developmental Disorders, analisou 115 crianças com TEA entre 3 e 12 anos. Os resultados são alarmantes: 60% das crianças apresentaram alterações no comportamento alimentar, e, entre elas, quase 90% (89,8%) mostraram sinais de alerta para Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE).
Mas a surpresa maior veio a seguir: quando 18 crianças com suspeita de esofagite foram submetidas à endoscopia digestiva alta com biópsia, três casos de esofagite foram confirmados — incluindo uma esofagite eosinofílica e duas esofagites erosivas (graus A e B). Isso demonstra que, em alguns casos, o comportamento alimentar problemático pode ser um sintoma de uma condição médica orgânica, e não apenas uma manifestação comportamental do autismo.
Por Que Isso Importa
Durante décadas, a comunidade médica e terapêutica tendeu a atribuir as dificuldades alimentares em crianças com TEA exclusivamente a fatores comportamentais — rigidez, hipersensibilidade sensorial, dificuldades sociais. Embora esses fatores sejam reais, o estudo brasileiro destaca um viés perigoso: a possibilidade de ignorar doenças orgânicas que causam dor e desconforto reais.
A conexão entre o cérebro e o intestino (eixo cérebro-intestino) em pessoas com autismo é uma área de crescente interesse científico. Pesquisas sugerem que alterações nesse eixo podem aumentar a vulnerabilidade a distúrbios gastrointestinais. Quando uma criança com TEA não consegue verbalizar que sente azia, náuseas ou dor ao engolir, ela pode simplesmente recusar a comida — e esse sinal vital pode passar despercebido.
Conclusão Prática
Para pais, cuidadores e profissionais de saúde, a mensagem é clara: as alterações alimentares em crianças com autismo merecem investigação médica completa, não apenas intervenções comportamentais.
O que fazer:
- Não normalize o comportamento alimentar problemático sem investigação
- Observe sinais de alerta: recusa persistente de alimentos, engasgos frequentes, arrotos excessivos, irritabilidade durante ou após as refeições
- Solicite avaliação médica com gastroenterologista pediátrico quando houver suspeita
- Considere a endoscopia com biópsia em casos selecionados — o exame pode revelar condições tratáveis como esofagite eosinofílica ou refluxo erosivo
- Trabalhe em equipe: fonoaudiólogos, nutricionistas, terapeutas ocupacionais e médicos devem atuar de forma integrada
O estudo da UFPE representa um avanço significativo para a saúde de crianças com autismo no Brasil. Ao reconhecer que o comportamento alimentar pode ser uma “janela” para condições médicas subjacentes, abrimos caminho para diagnósticos mais precisos e tratamentos mais eficazes — melhorando a qualidade de vida de milhares de famílias brasileiras.
Referência: Estudo descritivo realizado no Hospital das Clínicas da UFPE, publicado no Journal of Autism and Developmental Disorders, 2025-2026. Dados coletados entre janeiro e outubro de 2024.




