Sexualidade e Terapia Ocupacional: Estudo Mapeia Como a Profissão Está Enfrentando Este Tema Tabu
Introdução
Quando falamos em terapia ocupacional, a primeira imagem que vem à mente geralmente envolve reabilitação física, desenvolvimento de habilidades motoras ou adaptação de atividades diárias. Mas há um aspecto fundamental da vida humana que historicamente ficou à margem da prática profissional: a sexualidade. Uma revisão sistemática publicada em 2025 na prestigiada revista Australian Occupational Therapy Journal traz à tona como a profissão tem abordado — ou evitado — este tema essencial.
A sexualidade, segundo a Organização Mundial da Saúde, é “um aspecto central de ser humano ao longo da vida”, englobando identidade, intimidade, prazer e relacionamentos. E, como qualquer outra atividade da vida diária, ela está dentro do escopo da terapia ocupacional. Mas será que os profissionais estão preparados para isso?
O Que o Estudo Descobriu
Os pesquisadores realizaram uma extensa revisão de escopo (scoping review), analisando 4.491 referências de quatro grandes bases de dados científicas (MEDLINE, Embase, CINAHL e PsycINFO). Após triagem rigorosa, 136 estudos foram incluídos na análise final.
Os resultados revelam um cenário desequilibrado:
- 41,9% dos estudos focam nos fatores que influenciam terapeutas ocupacionais e estudantes a abordarem (ou evitarem) a sexualidade
- 27,2% tratam de avaliações ou intervenções práticas
- 13,2% discutem a educação e formação na área
- 7,4% envolvem o desenvolvimento de ferramentas de avaliação
- 5,1% examinam o papel do terapeuta ocupacional em relação à sexualidade
- 4,4% abordam diretrizes e modelos teóricos
A conclusão é clara: a literatura científica ainda se concentra excessivamente nos desafios e barreiras enfrentados pelos profissionais, enquanto áreas cruciais como intervenções baseadas em evidências e compreensão teórica permanecem subexploradas.
Por Que Isso Importa
A sexualidade é uma dimensão humana que atravessa todas as fases da vida e está presente em inúmeras ocupações diárias — desde cuidados pessoais e escolha de roupas até comunicação e manutenção de relacionamentos íntimos. Quando um terapeuta ocupacional ignora ou evita este tema, está deixando de atender a uma necessidade fundamental do ser humano.
O estudo identifica múltiplos fatores que dificultam a integração da sexualidade na prática clínica:
- Falta de conhecimento sobre sexualidade e o papel do terapeuta ocupacional
- Desconforto pessoal com o assunto
- Medo de ofender o paciente
- Restrições organizacionais (tempo, estrutura, protocolos)
- Preconceitos relacionados a fatores pessoais dos pacientes
Dados de pesquisas anteriores citadas no estudo são reveladores: embora 100% dos terapeutas ocupacionais canadenses considerem importante abordar a sexualidade, apenas 26% realmente o fazem na prática. Outro estudo mostrou que 83% raramente ou nunca tratam do tema.
Isso cria um ciclo problemático: sem prática, não há experiência; sem experiência, não há confiança; sem confiança, o tema continua sendo evitado — deixando pacientes sem o suporte de que precisam.
Conclusão Prática
A boa notícia é que a situação está mudando. A revisão identificou estudos promissores demonstrando como terapeutas ocupacionais podem aplicar stratégias claras, ferramentas práticas e treinamentos para melhor atender às necessidades relacionadas à sexualidade de seus clientes.
Para profissionais de terapia ocupacional:
- Busque formação continuada específica sobre sexualidade e disfunção sexual
- Desenvolva autoconsciência sobre seus próprios valores, crenças e possíveis preconceitos
- Utilize ferramentas validadas de avaliação sexual disponíveis na literatura
- Crie um ambiente seguro para que pacientes sintam-se confortáveis para falar
- Trabalhe em equipe multidisciplinar quando necessário (ginecologistas, urologistas, psicólogos)
Para pacientes e familiares:
- Saiba que você tem o direito de discutir sexualidade com seu terapeuta ocupacional
- Não hesite em trazer o assunto — o profissional está ali para ajudar em todas as dimensões da vida
- Procure profissionais que demonstrem abertura e competência no tema
A sexualidade é parte integrante da qualidade de vida e da participação ocupacional. A terapia ocupacional tem o potencial — e a responsabilidade — de garantir que pessoas de todas as idades, condições e identidades possam viver sua sexualidade de forma plena e saudável.
Referência: Scoping review publicada na Australian Occupational Therapy Journal, 2025. Análise de 4.491 referências, com 136 estudos incluídos.




