Crianças Autistas sem Deficiência Intelectual: O Desafio Invisível que o Brasil Precisa Enxergar
Introdução
Você sabia que a maioria das crianças diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Brasil não apresenta deficiência intelectual? Um estudo recente publicado no PubMed revela dados surpreendentes sobre esse grupo específico de crianças autistas — um perfil que frequentemente passa despercebido pelo sistema de saúde e educação, mas que carrega desafios únicos e significativos.
O Que o Estudo Descobriu
Pesquisadores brasileiros acompanharam 74 crianças e adolescentes com TEA que possuem QI igual ou superior a 75 — ou seja, dentro da faixa de inteligência normal ou acima da média. Os resultados são um alerta: apesar das habilidades cognitivas preservadas, essas crianças enfrentam obstáculos consideráveis.
Principais Achados:
Desafios de Linguagem: Embora 82,5% tenham falado suas primeiras palavras antes dos 24 meses, apenas 40% conseguiam formar frases completas aos 2 anos de idade. Além disso, mais de 40% apresentam dificuldades com prosódia (entonação da voz), pragmática (uso social da linguagem) e ecolalia (repetição de sons ou palavras).
Comportamento e Aprendizagem: 33,8% apresentam sintomas moderados a graves de desatenção, 27% mostram sintomas internalizados (como ansiedade e depressão), e 31% têm dificuldades com interpretação de texto — uma habilidade fundamental para o sucesso escolar.
Histórico Familiar: Ansiedade generalizada e depressão foram as condições psiquiátricas mais frequentes relatadas pelos pais, sugerindo uma possível carga genética compartilhada entre autismo e transtornos de humor e ansiedade.
Por Que Isso Importa
O estudo revela um paradoxo preocupante: crianças autistas sem deficiência intelectual frequentemente “passam despercebidas” porque suas dificuldades não são óbvias à primeira vista. Elas falam, aprendem, têm QI normal — mas lutam silenciosamente com interações sociais, regulação emocional e adaptação escolar.
Essa invisibilidade tem consequências reais:
- Diagnóstico tardio: Sem sinais óbvios de atraso cognitivo, o autismo pode não ser reconhecido até a idade escolar, quando os desafios sociais e de aprendizagem se tornam mais evidentes.
- Falta de suporte adequado: Muitas vezes, essas crianças são vistas como “preguiçosas” ou “desobedientes” em vez de receberem o apoio terapêutico e educacional de que precisam.
- Sofrimento emocional: A máscara social — o esforço constante para parecer “normal” — está associada a níveis mais altos de depressão, ansiedade e dificuldades comportamentais.
Conclusão Prática
Os pesquisadores enfatizam a necessidade urgente de estratégias educacionais e terapêuticas direcionadas especificamente para crianças autistas sem deficiência intelectual. Isso inclui:
- Avaliações multidisciplinares que vão além do QI, avaliando habilidades sociais, comunicação pragmática e função adaptativa.
- Treinamento de professores para reconhecer sinais sutis de autismo em alunos com bom desempenho acadêmico.
- Intervenções focadas em habilidades sociais e regulação emocional, não apenas conteúdo acadêmico.
- Apoio às famílias, reconhecendo que pais de crianças autistas frequentemente enfrentam seus próprios desafios de saúde mental.
O autismo sem deficiência intelectual é real, é comum e é negligenciado. Reconhecer essas crianças é o primeiro passo para garantir que elas recebam o suporte necessário para prosperar — não apenas na escola, mas na vida.
Fonte: Estudo publicado no PubMed (PMC12302814) — “Autistic Children And Adolescents Without Intellectual Disability: Developmental, Cognitive, and Behavioral Profiles”



