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Crianças com Autismo no Brasil: O Alerta dos Atendimentos de Emergência

Introdução

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) afeta milhões de famílias brasileiras, mas muitos pais ainda enfrentam barreiras significativas para obter diagnóstico e tratamento adequados. Um estudo publicado em fevereiro de 2026 no Journal of Autism and Developmental Disorders revelou dados preocupantes sobre como as unidades de emergência psiquiátrica têm se tornado um ponto de entrada inesperado — e frequentemente tardio — no sistema de saúde mental para crianças e adolescentes com autismo.

O Que o Estudo Descobriu

Pesquisadores brasileiros analisaram 112 atendimentos de crianças e adolescentes com TEA em uma unidade de emergência psiquiátrica regional durante um ano. Os resultados trazem à tona realidades que muitas famílias vivem em silêncio:

Diagnóstico Tardio em 1 a cada 4 casos: Surpreendentemente, 23,2% das crianças atendidas — mais de 1 em cada 4 — receberam seu diagnóstico de autismo pela primeira vez na emergência. A idade média de diagnóstico nesses casos foi de 8,86 anos, consideravelmente acima do ideal recomendado pelos especialistas, que defendem intervenções precoces a partir dos 2-3 anos de idade.

Perfil dos Pacientes: A maioria dos atendidos era do sexo masculino (83%), com idade média de 10 anos. As principais queixas que levaram as famílias à emergência foram agitação, agressividade e irritabilidade — comportamentos que frequentemente indicam sobrecarga sensorial ou dificuldades de comunicação não atendidas.

Comorbidades Importantes: Comparado a pacientes sem TEA, aqueles com autismo apresentaram taxas significativamente mais altas de deficiência intelectual e epilepsia, destacando a complexidade dos cuidados necessários.

Por Que Isso Importa

Os achados deste estudo brasileiro são um sinal de alerta para nosso sistema de saúde. Quando uma família leva uma criança autista à emergência psiquiátrica, geralmente é porque:

  • Não teve acesso a avaliações especializadas: A falta de profissionais capacitados e a longa fila de espera em centros de referência obrigam famílias a recorrerem aos serviços de emergência.
  • Não recebeu orientação adequada: Muitos pais não sabem como lidar com crises comportamentais em casa, faltando-lhes estratégias de manejo e suporte.
  • O diagnóstico veio tarde demais: Sem identificação precoce, a criança não recebe intervenções comportamentais e terapêuticas que poderiam prevenir crises mais severas.

Em países de renda média como o Brasil, onde o acesso precoce a cuidados especializados é limitado, as emergências acabam sendo o “portão de entrada” para o sistema de saúde mental — um caminho longe do ideal.

Conclusão Prática

O estudo reforça a urgência de três mudanças no Brasil:

  1. Capacitação de profissionais de emergência: Médicos e enfermeiros de pronto-atendimento precisam estar preparados para reconhecer sinais de TEA e gerenciar crises neurodesenvolvimentais com empatia e eficácia.
  2. Ampliação do diagnóstico precoce: Investir em triagem universal em pediatria e na formação de mais especialistas em desenvolvimento infantil pode reduzir drasticamente o número de diagnósticos tardios.
  3. Apoio às famílias: Criar redes de suporte que orientem pais sobre como responder a emergências comportamentais, evitando que situações manejáveis em casa se transformem em crises hospitalares.

Para pais e cuidadores, a mensagem é clara: se você suspeita de autismo em seu filho, busque avaliação o quanto antes. O tempo é fator crucial — quanto mais cedo o diagnóstico, maiores as chances de desenvolvimento pleno e qualidade de vida.


Fonte: Machado, M.C.L. et al. (2026). Factors Associated With Psychiatric Emergency Visits of Children and Adolescents With Autism Spectrum Disorder in an Upper-Middle-Income Country. Journal of Autism and Developmental Disorders.

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